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França: “Pegar com a esquerda e tocar com a direita”?

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Fecharam-se as urnas na França. Por margem muito apertada de votos ganhou Hollande.

Sarkozy foi vítima das suas próprias contradições. Cultivou a impopularidade durante o seu mandato. Na última cartada eleitoral tentou se aproximar da direita, que não confiou nele.
 
E tinha razões para tal. Sarkozy quando ganhou a eleição há cinco anos, a primeira coisa que fez foi se aproximar de Hollande e dos socialistas. Chegou a nomear ministros socialistas.
 
Depois, se arrependeu. Ficou embaralhado e temeroso com o prestígio do então diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, cujo nome crescia e liderava as pesquisas como o futuro presidente francês.
 
Diz-se que o escândalo sexual em que se envolveu Strauss foi fabricado por Sarkozy e seus fiéis seguidores. Sendo ou não, ele conseguiu tirar do páreo Dominique Strauss-Kahn.
 
Na primeira hora pós-escândalo, admitiu-se que os socialistas perderiam as chances de vitória eleitoral e a direita cresceria. As urnas mostraram o contrário.
 
A verdade é que hoje a França está dividida entre os socialistas, a direita e a ultra-direita, que se assemelha a práticas neonazistas, sobretudo em relação aos imigrantes.
 
Sarkozy conseguiu, de última hora, uma boa fatia da direita e ultra direita. Mas não foi suficiente. As contradições durante o mandato tiraram-lhe a credibilidade dessas facções, que preferiram ajudar a vitória de Hollande, na certeza de que será mais fácil derrotá-lo no futuro, começando em junho próximo nas eleições parlamentares.
 
Na política perder muitas vezes significa preparar um sucesso posterior.
François Hollande nunca subestimou Sarkozy. “É um mau presidente, mas ele é um candidato formidável”, dizia ele.
 
No passado, os dois candidatos tiveram a cumplicidade para defender o sim no referendo sobre a Constituição Europeia. Foi publicada a imagem dos dois, lado a lado na imprensa.
 
O perfil de Hollande revela a nostalgia de sua infância na Normandia. Uma vida calma e pacífica nos bairros chiques de Bois-Guillaume, a poucos quilômetros de Rouen. Hollande é um provinciano na alma, até em seus gostos culinários e o prazer de discutir hoje nos bares de Corrèze, onde mora. Um pai médico otorrinolaringologista, uma mãe assistente social, um irmão mais velho. Teve a vida convencional da classe média católica, entre almoços de domingo e aulas em instituições privadas.
 
A família mudou-se para Neuilly, quando ele tinha 13 anos. Estudou Ciências e é formado pela ENA. Nunca quebrou muito o ritmo tranquilo de quem sempre viveu longe de Paris. 
 
Sarkozy tem uma história familiar, que coincide com as reviravoltas trágicas da Europa, depois da guerra. O pai de Sarkozy era herdeiro de uma família aristocrática em Budapeste. 
Em 1948 chegou à França como apátrida. Sem dinheiro e sem documentos, depois de ter fugido dos ocupantes soviéticos.
 
A infância foi cercada por seus dois irmãos, em uma mansão de 17 º arrondissement de Paris. Não tinha nada de miserável. O pai se divorciou da mãe, quando ele tinha apenas cinco anos. 
À época existia um ambiente onde as separações eram raras. Sarkozy deixou passar um dia em uma entrevista, “a soma das humilhações de infância … Eu não tenho nenhuma lembrança da infância, porque não foi um momento particularmente feliz”.
 
Holande é pragmático e ponderado. Ele pratica a arte de síntese. Dessa forma, eliminou muitos de seus oponentes. Tudo inteligentemente, sem que ninguém perceba. Ele sempre diz sim e lentamente sufoca as pessoas.
 
Nicolas Sarkozy em 1974 participou da primeira reunião com Jacques Chirac. O seu primeiro discurso, na fundação do partido em junho de 1975, surpreendeu os barões: “Ser jovem é gaullista para ser revolucionário!”.
 
Durante anos, quando ele era prefeito de Neuilly, organizou festas na Câmara Municipal, convidando-os à sua mesa os cidadãos ricos e poderosos.
 
Ao longo de sua vida dizia-se dele a mesma coisa: “energético”, “voluntário”, “inventivo”, “agressivo”, “excessivo” e “brutal”. Em 1995, após luta contra seu antigo mentor, Jacques Chirac, foi descrito como “traidor”. Dez anos depois, ele foi considerado como “o melhor candidato da direita”. Afirma-se que “Ele nunca seria amado pelos franceses”; porém no dia seguinte “ele poderia  se tornar presidente”!
 
O mundo indaga se Hollande mudará os rumos da Europa. 
 
Se mudar o euro acabará ou continuará? Com o seu estilo de sempre dizer “sim” será que ele entrará em “bola dividida”?
 
Ou, será que Hollande aplicará a máxima política de que governar é como tocar violino: a gente pega com a esquerda e toca com a direita.
 
Convém lembrar que Radomiro Tomic, um dos fundadores da Democracia Cristã chilena, dizia que "quando a esquerda se alia com a direita, é esta quem governa". 
 
Restará aguardar se Hollande se aliará com a direita, a partir do seu próximo encontro na Alemanha, com a primeira ministra Merkel.
 
Tudo é possível. No Brasil, Lula e Dilma são atores vivos em filme semelhante. 
 
Ambos se elegeram contra a política econômica “imperialista” de FHC e depois mantiveram, sem alterações, a mesma política de FHC.
 
Agora, Dilma mexe até na poupança, que FHC pensou em mexer, mas não teve coragem política.
Muita água irá rolar na Europa depois da vitória de Hollande...
 
Ney Lopes
Jornalista, advogado, professor de direito titular da UFRN e ex-deputado federal
www.blogdoneylopes.com.br 
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